O Cenario
No espaco de dezoito meses entre 2013 e 2014, os tres nomes mais historicos da industria de carros de alto desempenho revelaram, cada um, a sua visao do hypercar hibrido definitivo. A Ferrari lancou o LaFerrari. A McLaren apresentou o P1. A Porsche revelou o 918 Spyder. Cada um usou uma combinacao de combustao interna e energia electrica para produzir mais de 900 bhp. Cada um custou mais de 1 milhao de libras. E cada um adoptou uma abordagem filosofica fundamentalmente diferente para o mesmo desafio de engenharia.
A pergunta que todos fizeram, "qual e o mais rapido?", era a pergunta errada. A velocidade era meramente o preco de entrada. O que separava estes tres carros era algo mais profundo: as suas respectivas respostas ao que um hypercar deveria ser.
LaFerrari: O Argumento Emocional
O LaFerrari combinou um V12 de aspiracao natural de 6.262 cc, o F140 FE, produzindo 789 bhp a 9.000 rpm, com um motor electrico de 161 bhp integrado na caixa de dupla embraiagem de sete velocidades. Potencia total do sistema: 950 bhp. Foi, e continua a ser, o unico hypercar hibrido dos tres a usar um motor de aspiracao natural, e essa decisao definiu todo o seu caracter.
Enquanto o P1 e o 918 usaram os seus motores electricos para preencher lacunas de binario e reforcar a resposta a baixas rotacoes, a Ferrari usou a electrificacao para amplificar o que o seu V12 ja fazia brilhantemente. O sistema HY-KERS derivado do KERS adicionou binario instantaneo a baixas rotacoes sem diluir o grito selvagem do V12 nas altas rotacoes. O resultado foi um carro que parecia mais visceral do que qualquer hibrido tinha o direito de ser: uma linha vermelha a 9.000 rpm acompanhada por assistencia electrica que parecia vento de cauda em vez de muleta.
A Ferrari produziu 499 unidades, com um preco de aproximadamente 1,15 milhoes de euros. Hoje, os valores excedem 3,5 milhoes de euros para carros standard e 5 milhoes de euros para o Aperta (topo aberto, 210 unidades). O LaFerrari acelerava dos 0-100 km/h em 2,4 segundos e atingia 350 km/h. Mas os numeros nao captam a sua essencia. O LaFerrari foi o ultimo Ferrari construido primariamente para fazer o condutor sentir algo. Que tambem fosse devastadoramente rapido era quase incidental.
McLaren P1: O Argumento da Engenharia
O McLaren P1 combinou um V8 biturbo de 3.799 cc produzindo 727 bhp com um motor electrico de 177 bhp, para um total combinado de 903 bhp. O seu monocoque MonoCage em fibra de carbono pesava apenas 90 kg. O peso total em ordem de marcha era 1.395 kg, 200 kg menos que o LaFerrari. Tinha aerodinamica activa, incluindo um aileron traseiro que funcionava como aerofreio e um sistema de altura ao solo que baixava o carro 50 mm no modo Race. O P1 foi o unico dos tres concebido explicitamente para ser o carro mais rapido num circuito.
O caderno de encargos da McLaren para o P1 era uma unica frase: "O melhor carro de conducao do mundo em estrada e circuito." Nao disseram o mais bonito. Nao disseram o mais exclusivo. Disseram o melhor. E era a serio.
O P1 produzia 600 kg de forca descendente a 257 km/h, mais do que qualquer rival. O seu sistema Instant Power Assist System (IPAS) usava o motor electrico para eliminar completamente o atraso do turbo, fornecendo binario instantaneo enquanto os turbos ganhavam pressao. O resultado era um carro que parecia de aspiracao natural na resposta ao acelerador apesar de ser turbocomprimido, um truque que nenhum outro fabricante replicou com sucesso a este nivel.
A McLaren produziu 375 unidades a aproximadamente 866.000 libras. O P1 fazia os 0-100 km/h em 2,8 segundos e os 0-200 km/h em 6,8 segundos. A velocidade maxima era electronicamente limitada a 350 km/h. Os valores de mercado actuais situam-se entre 1,5 e 2 milhoes de libras, tornando-o o mais acessivel dos tres, uma palavra que nao significa nada neste contexto mas que revela algo sobre a desejabilidade relativa.
Porsche 918 Spyder: O Argumento Racional
O Porsche 918 Spyder combinou um V8 de aspiracao natural de 4.593 cc (608 bhp, derivado do motor RS Spyder LMP2) com dois motores electricos produzindo um total combinado de 279 bhp, para um total de 887 bhp. Era o unico dos tres com traccao integral. Era o unico que podia funcionar em modo exclusivamente electrico durante 19 km. E era o unico que a Porsche descreveu, de cara seria, como um "hypercar de uso diario".
O truque de festa do 918 era o seu tempo de volta na Nordschleife do Nurburgring: 6:57 com Marc Lieb ao volante, tornando-o o primeiro carro de producao homologado para estrada a quebrar a barreira dos sete minutos. Alcancou isto nao atraves de potencia bruta, o LaFerrari tinha mais 63 bhp, mas atraves de traccao, equilibrio e a seguranca inspiradora da traccao integral e da direccao no eixo traseiro. O 918 era o carro que se podia conduzir a 95% numa pista humida e ainda assim registar um tempo mais rapido do que o LaFerrari a 90%.
A Porsche produziu 918 unidades a $845.000 cada. Os valores actuais rondam 1,8 milhoes de libras. O Weissach Package, que retirava 41 kg atraves de fibra de carbono sem pintura e jantes de magnesio, comanda um premio significativo. O 918 acelerava dos 0-100 km/h em 2,6 segundos, o mais rapido dos tres, e dos 0-200 km/h em 7,2 segundos. Velocidade maxima: 345 km/h.
Os Numeros
No papel, o LaFerrari ganha em potencia (950 bhp), o P1 ganha em peso (1.395 kg) e forca descendente (600 kg), e o 918 ganha em aceleracao (2,6 segundos ate aos 100 km/h) e tempos de volta (6:57 na Nordschleife). Mas estes numeros obscurecem mais do que revelam. Cada carro foi optimizado para uma metrica diferente porque cada fabricante acreditava que essa metrica era a mais importante. A Ferrari optimizou para o impacto emocional. A McLaren optimizou para o desempenho em circuito. A Porsche optimizou para a usabilidade e capacidade em todas as condicoes meteorologicas.
Escolher entre o LaFerrari, o P1 e o 918 nao e uma questao automovel. E uma questao filosofica. Queremos o carro que nos comove, o carro que nos desafia, ou o carro que nos favorece?
Qual Deles Ganha?
Se queremos a experiencia de conducao mais arrepiante, o carro que nos faz parar no acostamento so para ouvir o motor ao ralenti, o LaFerrari ganha. Se queremos o instrumento de conducao mais puro, o carro que recompensa a precisao e pune a preguica, o P1 ganha. Se queremos o carro que realmente conduziriamos todos os dias, com chuva ou sol, para o escritorio e depois para a Nordschleife, o 918 ganha.
A resposta correcta, evidentemente, sao os tres. A Santissima Trindade existe nao como uma competicao, mas como um triptico: tres visoes complementares da mesma verdade. Juntos, representam o apice da era da combustao interna, o momento imediatamente antes de a electrificacao passar de complemento a substituto. Nunca serao igualados, porque as condicoes que os criaram, orcamentos ilimitados, nenhuma regulamentacao de emissoes e tres egos corporativos presos num duelo a tres, nunca se repetirao.





